sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Amélia

Amélia olhou para a mãe. Contraiu os lábios, semicerrou os olhos e as suas sobrancelhas imediatamente adoptaram a foma de V. Ficou assim uns segundos, à espera que a mãe captasse bem a sua expressão, passando logo de seguida para a sua segunda expressão preferida, arqueou as sobrancelhas, e por entre os lábios carnudos saíu uma língua esticada. a acompanhar o rabo deu um trejeito de lado.
Começava bem esta manhã...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

continuação

Jogámos às copas. É um jogo que demora o mesmo tempo que a carrinha a chegar à escola. Saímos todos em grande algazarra. Ela estava no sítio do costume, olhava-me através daquele azul profundo dos seus olhos. Corei.

Subi as escadas que iam dar à sala de aula. A professora já estava sentada. De jornal empunhado, ia espreitando os alunos que entravam com ar espantado. Ouvia-se um burburinho dentro daquelas 4 paredes. Depois de estarmos todos na sala, o burburinho elevou-se. De repente, ouve-se um farfalhar de jornal. Todos se assustaram, e houve um silêncio gelado. Mas a Marta sorria. Eram assim as nossas aulas, todos os dias no princípio, no meio ou no fim a Marta fazia-nos sempre uma surpresa.

Depressa foi o intervalo. O Tomé levou uma bola.

12Julho2009

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Levantei-me, como de costume nos 2 últimos dias, com os seus berrinhos de quem acha que é único no mundo.

Escolhi a roupa e vesti-me sozinho, "já és crescidinho", até parecia estar a ouvi-la. Fui para a cozinha. Agarrei no banco que estava por baixo da mesa, pus-me em cima dele. Peguei na tijela e pu-la na mesa.

O choro já tinha acalmado, que bom!

Fui buscar o leite ao frigorífico. Enquanto a tijela com o leite aquecia no micro-ondas, agarrei novamente no banco e fui buscar os cereais.
- Bom dia filho - ouvi a voz estremunhada do meu pai. Bom dia, respondi.

O choro recomeça.

Olho para o relógio pendurado na parede. Dez minutos ou perco a carrinha. Como a correr. Apanho a mochila. Dou um beijo ao meu pai. Vou ao quarto, dou um beijo na testa da minha mãe e depenico um beijo na cabeça careca.

- Até logo querido, porta-te bem. Aqueles olhos encovados e a sua tentativa de sorriso enfurecem-me.

Desço as escadas de 4 a 4. A carrinha já lá está. O Sr. Alexandre deita-me o olhar reprovador do costume, enquanto aponta para o gigantesco relógio que está mesmo por cima do pára-brisas. Olho para a parte de trás e fico mais bem disposto. Está lá a malta toda com o baralho de cartas em punho.

14Fevereiro2009

O bolo da Joana

A Joana queria fazer um bolo
e foi perguntar ao pai onde estavam os ingredientes,
o pai da
Joana disse que não sabia e que ia perguntar à mulher.
O pai da
Joana foi dizer à mulher que a Joana queria fazer um bolo e perguntou onde estavam os ingredientes,
a mulher do pai da
Joana disse que não sabia e que ia perguntar à irmã.
A irmã da mulher do pai da
Joana disse que não sabia e que ia perguntar à prima.
A prima da irmã da mulher do pai da
Joana disse que não sabia e que ia perguntar à tia.
A tia da prima da irmã da mulher do pai da
Joana disse que não sabia e que ia perguntar à mãe.
A mãe da tia da prima da irmã da mulher do pai da
Joana foi buscar os ingredientes
que os entregou à filha
que os entregou à sobrinha
que os entregou à prima
que os entregou à irmã
que os entregou ao marido
que os foi entregar à filha
Joana.
Mas a
Joana tanto tempo esperou que adormeceu.

14Fevereiro2009

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Roberto ficou feliz novamente

Roberto era um lápis de cor. Vivia feliz. Um dia, o lápis , para arreliá-lo, disse-lhe: - Já reparaste que verdes são as folhas e a relva, azul é o céu, brancas são as nuvens, castanhos são os troncos das árvores? Por isso é que nós somos pequenos e tu és grande. Não há quase o que pintar contigo. Roberto ficou muito triste ao ouvir estas palavras, mas sabia que o Zé tinha razão.

Um dia, ouve-se uma voz de menina: - Mas onde está o cor-de-rosa? Ah, cá estás! És a cor mais linda do mundo.

Roberto ficou feliz novamente.


Revisto em 6Fevereiro2009

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Era uma vez uma menina que estava na barriga da mãe.

Os dias para ela, eram muito engraçados. Passava-os a boiar de um lado para outro. Às vezes queria brincar com as mãos e com os pés, mas não conseguia porque os balanços da mãe a embalavam e ela acabava por adormecer. às vezes ouvia vozes lá fora. Conseguia distinguir 4 com facilidade. A da mãe, que falava muito. Uma voz mais grossa, que devia ser do pai, uma vozinha mais fininha, que devia ser da irmã e outra que era mais um som esquisito, que fazia: miaaauuuu.

Ela não conseguia perceber nada do que ouvia, mas percebia quando estavam zangados, ou quando estavam alegres e se riam.

O que ela gostava mais de ouvir, eram 2 coisas. Uma era a mãe a cantar. Todo o seu corpo estremecia. A água onde boiava toda tremia e isso sabia-lhe muito bem. A outra coisa que ela gostava de ouvir mais, era a vozinha fininha da irmã a falar baixinho, como se estivesse a dizer um segredo. Tinha pena de não perceber o que ela lhe estava a dizer. Mas percebia que a irmãzinha gostava muito dela.

A sua vidinha assim corria até que um dia teve uma dor forte. Todo o seu corpinho estremeceu. Estava com convulsões e ela não percebia nada do que se estava a passar. A barriga da mãe apertava-se de forma regular e quase que parecia que ficava mais pequena.

Ela esperneava, mas parecia que isso só fazia com que a cabeça se metesse cada vez mais numa parte mais apertadinha. Foi um tormento que ela não estava a perceber. De repente sentiu que a cabeça tinha acabado de passar a parte mais apertada, e estava mais pesada. E viu muita luz, muita luz. O corpo também já não estava apertado. Agora estava toda esticadinha, sem saber onde pôr as pernas e os braços, mexia-os muito, mas estavam muito pesados. Estava cheia de frio. Tanto frio. Chorava, chorava. Tudo lhe doia, o peito, a barriga, os olhos, os ouvidos... Mas o que lhe estava a contecer? Onde estava o líquido, o embalo, as vozes? De repente ficou mais quentinha e ouviu a voz da mamã. Ficou um bocadinho mais descansada, a sua mãe estava por ali. Ela queria abrir os olhos e ver a mamã, mas havia tanta luz que só a via muito desfocada.

A menina habituou-se às dores que tinha. Aliás estas foram passando. Até porque descobriu que a mamã deitava um líquido para a sua boca, que cheirava muito bem e que sabia ainda melhor. Despois dormiu, para descansar daquela agitação toda.

Estava desejosa de ver a cara da irmã, daquela vozinha fininha que lhe contava segredos. A cara do pai, aquela voz mais grossa e a cara da outra voz que era esquisita, aquela que fazia: miaauuu.


7Novembro2008

sexta-feira, 30 de maio de 2008

O Lápis Roberto

Era uma vez um lápis de cor chamado Roberto. O lápis Roberto tinha muito orgulho na sua cor, era da cor mais bonita que existia, cor-de-rosa. Cor-de-rosa era a cor das flores. Não se lembrava que mais na natureza pudesse ser cor-de-rosa, mas também não lhe interessava. O lápis cor-de-rosa Roberto adorava a sua cor.
Roberto vivia numa caixa de lápis juntamente com outros lápis de cor. De todos era o maior e sentia muito orgulho nisso. Uma vez, o Zé, o lápis de cor verde riu-se dele. – Já viste Roberto, tu és grande porque ninguém pinta contigo. Eu sou pequenino porque a relva é verde, as folhas das árvores são verdes. O azul também está pequeno porque o céu é azul. Até o branco, repara, até o branco está mais gasto que tu, porque serve para fazer as nuvens e pôr algumas cores mais claras.
O lápis Roberto ficou muito triste depois de ouvir estas palavras maldosas. No fundo, no fundo, ele concordava com o que dizia o seu colega da caixa de lápis. Mas o que poderia fazer? Gostava sempre de pensar que não havia flores verdes, nem azuis. Cor-de-rosa era uma cor única!
Um dia, Roberto e os seus colegas acordaram repentinamente. A sua caixa estava a ser fortemente abanada. A tampa abriu-se entrando muita luz pela caixa adentro, ao início eles nem conseguiam ver tanta era a claridade. Depois foram lançados para o chão um a um.
Quem ficava na caixa já estava com medo, pois ouvia os gritos dos colegas ao caírem no chão. Roberto tremia de medo, quando sentiu 2 dedos agarrarem-no com tanta força que quase o espremiam. Mas não caiu, ao invés do que esperava, e ouviu assim uma voz de menina:
- Ah, aqui está o cor-de-rosa. A cor mais bonita do mundo.
E o Roberto ficou feliz para sempre.

28Maio2008